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Archive for the ‘Mulher’ Category

 

A violência doméstica contra mulheres continua a ser uma prática “generalizada, escondida e pouco comunicada” na União Europeia, constata a agência para a igualdade de género, realçando que “as vítimas não recebem apoio suficiente”.

O Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE), com sede em Vilnius (Lituânia), elaborou um relatório sobre violência doméstica contra mulheres e apoio às vítimas nos 27 estados-membros e na Croácia, a pedido do Chipre, que preside atualmente à União Europeia (UE).

Nas conclusões preliminares do relatório, a que a agência Lusa teve acesso — e que serão divulgadas online a 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres –, o EIGE regista “progressos”, mas destaca que “persistem muitos desafios”.

A agência europeia aponta duas razões principais para este cenário: insuficiente número de serviços especializados para mulheres violentadas e falta de formação específica para profissionais que lidam com vítimas e perpetradores.

O EIGE lamenta, em concreto, o caráter não obrigatório da formação destinada àqueles profissionais, bem como “a inconsistência” dos programas para perpetradores.

Segundo dados do EIGE para a UE, “nove em cada dez vítimas” de violência entre parceiros íntimos (independentemente do vínculo legal e da coabitação) são mulheres e pelo menos uma em cada cinco delas será violentada durante a sua vida adulta.

Apesar dos “progressos significativos” na criminalização da violência doméstica, a prática é “pouco comunicada” e a taxa de condenações “é baixa”, quando comparada com o número de casos registados. Simultaneamente, “as sanções raramente funcionam como impedimentos”, destaca-se.

O financiamento estatal dos serviços de apoio às vítimas “é inconsistente”, considera a diretora do EIGE, Virginija Langbakk, citada nas conclusões preliminares de um relatório cuja versão final só será divulgada no final do ano.

Simultaneamente, os serviços de apoio às vítimas “não são suficientes” e têm “uma distribuição desigual pelo país”, refere Virginija Langbakk.

Entre os 27 estados-membros, 17 disponibilizam linhas de apoio para as vítimas de violência, mas em apenas seis estas são gratuitas e funcionam 24 horas por dia.

Apesar de generalizado o acolhimento às mulheres vítimas de violência entre parceiros íntimos (com três exceções), apenas cinco estados-membros disponibilizam uma casa-abrigo por cada dez mil mulheres e só em sete deles estas instituições estão espalhadas por todo o território nacional.

Só oito estados-membros e a Croácia cumprem a recomendação de fornecer “pelo menos um centro ou um serviço de aconselhamento por cada 50 mil mulheres” vítimas de violência.

Perante este cenário, o EIGE recomenda financiamento sustentável dos serviços especializados e das organizações da sociedade civil que os garantem; formação obrigatória e sistemática para profissionais que lidam com casos de violência contra mulheres; e monitorização e avaliação dos serviços de apoio e dos planos de ação nacionais.

 

Fonte: LUSA/DN.

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Publicado originalmente no Terra

 

A pressão para ser uma mãe perfeita força mais da metade das mulheres a mentir sobre seus cuidados maternos para parecerem mães melhores do que seus pares. O website BabyCentre descobriu que 53% das mães preferem criar histórias sobre suas experiências maternas do que admitir que nem sempre tomam a atitude correta. O site entrevistou 1 mil britânicas, com o objetivo de desvendar os mitos da parentalidade. As informações são do Daily Mail.

O estudo concluiu que as mulheres não só mentem para outras mulheres, como também para os parceiros para se colocarem em uma posição de mãe superior. Um em cada três entrevistadas confessou não ser totalmente sincera com a pediatra e cerca de 71% disseram que mentem para os filhos para tornar o dia mais fácil.

A maioria das mães, nove em cada 10 entrevistadas, confessou usar a TV para manter a criança quieta. Um terço confessou deixar de contar a história para o filho antes de ele dormir e deixá-lo assistir um programa de TV, enquanto um quinto disse que, de vez em quando, substituem um jantar saudável do filho por chocolates e outros doces.

A responsável pela pesquisa, Sasha Miller, acredita que a pressçao sobre as mulheres impede que elas sejam verdadeiras sobre os desafios de ser mãe. “Lutamos todos contra o tempo, eu não acho que as mães devem se sentir mal em admitir certos delizes”, disse ela. O que mais surpreendeu a pesquisadora foi como as mães tentam manter as aparências frente a outras mulheres.

O estudo ainda apurou que dois quintos das mulheres já sentiram antiparia pelo próprio filho e fazem comparação da criança com filhos de outras mulheres.Três quartos das entrevistadas afirmaram sentir alívio por ter que trabalhar após o fim de semana.

 

Foto: Getty Images.

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Andrezza Czech, no UOL

A introdução do livro é uma conversa por e-mail. Não há páginas numeradas, nem listas com uma série de números e porcentagens. Em “Tudo o que Você Não Queria Saber sobre Sexo” (Editora Record), pesquisas realizadas por mais de 20 anos pela antropóloga Mirian Goldenberg são traduzidas em cartuns de Adão Iturrusgarai. Usando o humor como principal instrumento para falar sobre sexo e relacionamentos, o livro reúne duas grandes pesquisas de Mirian: uma sobre fidelidade e casamento, que começou a ser realizada em 2000, e outra sobre a risada, iniciada em 2010.

UOL Comportamento: Você diz no livro que as diferenças de gênero estão desaparecendo, mas sua pesquisa mostra, por exemplo, que homens ainda acham que as mulheres são péssimas motoristas e acreditam que, entre outras coisas, o maior defeito que elas podem ter é não saber cozinhar. Estamos mesmo mais parecidos?

Mirian Goldenberg: O que os homens mais dizem sobre as mulheres é que elas são românticas, sensíveis, delicadas. Mas usar apenas essas respostas seria ficar no senso comum. Aqueles que dizem que mulheres são péssimas motoristas, por exemplo, foram poucos, mas achamos importante publicar. Isso mostra que os homens mudaram, as mulheres mudaram, mas ainda há pessoas com pensamentos muito conservadores. A semelhança entre os sexos aparece mais nas pesquisas de infidelidade e iniciação sexual. Segundo minhas pesquisas, homens e mulheres começam hoje a vida sexual em torno dos 16 anos. E o que pensam em relação à infidelidade não é tão diferente.

UOL Comportamento:  Quais foram as mais respostas mais frequentes sobre o que é ser infiel?

Mirian:  Fazer sexo com outra pessoa, trair o pacto que tem com o parceiro e mentir. Muitas vezes o que mais incomoda não é a relação sexual, é a mentira.

UOL Comportamento:  Segundo suas pesquisas, 60% dos homens dizem que já foram infiéis e 47% das mulheres assumem a infidelidade. Embora os números sejam próximos, eles justificam o ato dizendo que o fizeram por instinto, pressão dos amigos, status. Já as mulheres dizem trair por vingança, solidão, carência. Essa é a maior diferença?

Mirian:  É importante saber que esses 60% dos homens traíram mais vezes do que as mulheres. Enquanto ela traiu uma vez, o cara traiu em quase todos os relacionamentos. E há essa ideia de instinto, de ser algo da natureza deles. Para as mulheres é sempre relacionado à falta de alguma coisa, é sempre a culpa do marido. Nunca a mulher fala que traiu porque teve tesão no homem, é sempre porque não se sentia mais desejada, não tinha mais romance, o marido não elogiava mais. Esse tipo de discurso em que as mulheres não assumem a responsabilidade me chamou atenção. A culpa é sempre do cara. “Se ele tivesse me dado atenção, não trairia”.

UOL Comportamento:  As expectativas femininas são sempre muito maiores do que a dos homens?

Mirian:  Sim, elas têm essa expectativa exagerada não só em relação ao parceiro, mas também com elas mesmas. Até a parte da pesquisa sobre risada mostra que há uma série de requisitos enormes para elas poderem rir mais. Para os homens, é só beber com amigos e pronto.

UOL Comportamento:  Quando questionadas sobre o que mais invejam em um homem, mulheres responderam, entre outras coisas, liberdade, independência, liderança e até fazer xixi em pé. Já os homens disseram que não invejam nada nas mulheres. Foi uma surpresa?

Mirian:  Foi uma das coisas que mais me impactou. Quase 50% das mulheres que deram depoimento para as pesquisas falaram de liberdade. Isso foi algo que me fez pensar sobre as minhas invejas. Eu não invejo a liberdade masculina nem fazer xixi em pé, mas passei a pensar que, por exemplo, invejo o fato de os homens não terem que se preocupar com o que vestir. A mulher passa por um sofrimento cada vez que tem que se produzir, e isso é uma forma de falta de liberdade também. O corpo e a aparência são formas de prisão. O cara pode usar o mesmo terno e a mesma camisa milhões de vezes e ninguém vai reparar.  Mas é impensável uma mulher usar o mesmo vestido em dois eventos. São prisões invisíveis que acabamos criando para nós mesmas. E nós ainda não quebramos essas regras.

UOL Comportamento:  Mas a liberdade que as mulheres tanto invejam seria também a sexual?

Mirian:  Claro. Elas falam primeiro em liberdade, mas depois falam sobre separar sexo de afeto, poder ter muitos parceiros, não sofrer tanto com o fim de um relacionamento… Elas invejam essa leveza masculina em relação ao sexo. É como se as mulheres terminassem, mas ficassem anos pensando no que erraram com o ex, o que fizeram de errado, mesmo quando não queriam mais aquele homem. Para elas, parece que os homens vão adiante e não carregam essa mochila.

UOL Comportamento:  Quando questionados sobre com quantas pessoas tiveram relações sexuais, homens e mulheres agiram de formas diferentes?

Mirian: As mulheres responderam com muita precisão e mostraram um discurso de que lembram muito de todos os parceiros. Já os homens foram muito imprecisos. Isso mostra que os comportamentos mudaram, estão mais parecidos, mas o discurso continua muito diferente. Mesmo tendo menos parceiras e sendo mais fiéis, os homens ficam com vergonha de dizer que dormiram com quatro ou cinco mulheres e preferem dizer não lembram. Eles ainda acham que um homem de verdade deve ter muitas parceiras e estão sempre se comparando com os amigos.Eles se comparam o tempo todo e acham que estão em desvantagem. A socialização é tão diferente entre os sexos que a mulher não se preocupa se a amiga teve 35 parceiros e ela não.

UOL Comportamento:  Quando questionados sobre o modelo ideal de vida de um casal, uma das respostas dos homens foi ter um relacionamento aberto. Isso funciona?

Mirian:  É um ideal, mas não uma prática. Pesquiso sobre infidelidade na cultura brasileira desde 1988 e encontrei duas ou três relações do tipo nesse período. O que encontro com frequência são homens e mulheres infiéis, mas relações abertas mesmo são poucas. Na prática, o que acontece é que um é infiel e o outro não fica sabendo –ou, quando sabe, é um desastre. Alguns até praticam swing, mas isso não é uma relação aberta, só é feito o que foi combinado. O relacionamento aberto é um ideal dos anos 1960, 1970, mas o que permanece mesmo é a infidelidade.

UOL Comportamento:  Você percebe mudanças de comportamento desde o início de suas pesquisas, há mais de 20 anos, até hoje?

Mirian:  Antes não ouvia tanto as mulheres dizerem que traíam. Elas eram sempre as traídas. Hoje vejo situações que me surpreendem muito, como casos em que o marido está dormindo e a mulher encontra, pela internet, um cara que nunca viu e está em outro país. Elas consideram esse sexo virtual uma traição, mas não sei se um homem consideraria. Muitas mulheres não procuram nem sexo, apenas gostam de alguém que tenha uma conversa profunda. Também é mais frequente que uma mulher mais velha namore caras mais jovens. Hoje há também mulheres que traem os maridos com mulheres, porque acham que elas escutam mais, têm mais intimidade. E encontrei até um ou dois casos de mulheres que pagaram garota de programa. Ou esses casos não existiam antes, ou não eram revelados.

UOL Comportamento:  Aproveitando o título do livro, o que homens e mulheres não querem saber sobre sexo?

Mirian: Ambos querem saber muito, mas, ao mesmo tempo, não querem, porque isso representa mexer com um monte de estereótipos, rótulos e regras invisíveis que existem. É como se houvesse uma prisão invisível em que todo mundo tem que corresponder a um tipo de performance. Dá para acabar com essas prisões e ter uma vida sexual e afetiva muito mais divertida em vez de levar tudo tão a sério. Muito homem quer que a mulher ache graça da celulite, da gordurinha… Dar uma risada é muito mais sexy do que ficar gostosa e perfeita!  É preciso inventar uma forma de viver sua libido sem seguir regrinhas.

 

Fonte: Pavablog.

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Pelo menos 41 mulheres foram assassinadas em 2008 em Portugal pelos companheiros, anunciou hoje a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), defendendo que este tipo de crime deve ser analisado separadamente no relatório de Segurança Interna.

De acordo com dados de um relatório da UMAR, elaborado com dados da imprensa e entregue hoje no Ministério da Administração Interna, em 82 por cento de 46 homicídios contabilizados o homicida foi o “outro membro ou ex-membro do casal”, fosse em situação de casamento, união de facto ou namoro.

“Este número assustador e trágico, que peca por defeito”, devia ter sido tratado separadamente no Relatório Anual de Segurança Interna, considera a UMAR, argumentando que incluí-lo no universo de todos os homicídios cometidos “leva à incompreensão deste especialíssimo fenómeno criminal”.

O “homicídio perpetrado contra mulheres por maridos, companheiros e namorados” precisa de ser “invertido drasticamente”, o que passará por individualizar estes crimes nas estatísticas e fazer um “alerta social enviado pelos poderes públicos à sociedade que somos e que deve conhecer-se numa das suas mais profundas patologias”, defende a UMAR.

O relatório de Segurança Interna referente a 2008 contabilizou dez casos de morte por violência doméstica, situações em que as mulheres morreram em consequência das agressões sofridas. Com os dados recolhidos na imprensa do ano passado, a UMAR traça um cenário bem mais grave: 41 mulheres mortas pelos companheiros em situações de violência conjugal, a que acrescem seis familiares – filhos, pais ou outros – também assassinados.

Em 28 dos casos, o assassino foi o companheiro da altura, fosse marido ou namorado, enquanto em 13 dos crimes, o homicida foi o ex-companheiro. Em cinco situações elencadas, o agressor era descendente directo, familiar ou desconhecido. A maioria das vítimas (20) tinha entre 24 e 35 anos. Quanto aos agressores, a maioria tinha entre 36 e 50 anos.

Fonte: Público.

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Ser mãe é a possibilidade de experimentar em dobro a mesma vida, é voltar para a infância não sendo mais criança, voltar para a adolescência não sendo mais adolescente. Quem já não teve o sonho de repetir o passado? Mãe aperfeiçoa seu desejo e até melhora a memória que julgava encerrada.

Todos sabem que uma vez o corpo habitado, o ventre povoado, o amor faz cidade. Mas não vou falar do barulho bom da chuva nas calhas. Talvez tenha que cuidar das infiltrações pela casa.

Vou direto ao ponto: maternidade não pode servir como desculpa. Muito menos como perdão para não correr riscos.

Minha mãe argumentava que não casou novamente para cuidar dos filhos. Ela se separou aos 40 anos, na efervescência da idade. Pretendentes batiam à porta com serenatas, flores e bombons, recorrendo a cortejos desesperados. Eu atendia a campainha com pena da performance em vão dos seus apaixonados.

Juro que não merecia receber essa culpa. Ela avisava que os filhos eram ciumentos e não admitiriam um segundo casamento – nunca testou a tese. Cansei de ouvir que não desfrutava de condições de sair à noite para cuidar da prole… já adulta. Transferia a decisão para os nossos ombros.

Não deve ser sadio para um filho carregar o estigma de que demitiu sua mãe do futuro amoroso. De que é o responsável por complicar seus relacionamentos e adiar namoros e viagens.

Estou exagerando?

Tenho uma amiga linda, jovem e profissional reconhecida, que aceita os convites para festas, cafés e jantares com facilidade. Estranho sua rapidez afirmativa. Quem diz sim no aceno dirá não com um longo aperto de mão.

No momento que é convidada, responde com entusiasmo de acampamento de escola. Solta um viva, um urra, um não acredito impregnado de presságios. Parece que estava esperando ansiosamente o chamado.

Pena que desmarca na última hora com um telefonema sussurado, constrangido e pesado de juras por uma próxima chance. Entendo o que passa em seu assoalho, aceita de pronto e demora semanas sondando uma maneira de cancelar o encontro e não ferir expectativas. Sempre vai ferir seu orgulho.

A desculpa dela é igual há 14 anos, desde que seu filho nasceu: Theo tem alguma coisa que a impede de se divertir, ou uma doença, ou não há com quem ficar ou tem aniversário ou está mal na escola. Foram centenas de motivos, dos tradicionais aos mais irreverentes. Acredito que ela perde mais tempo elaborando justificativas do que se comparecesse aos compromissos.

Theo pouco prevê que paga a conta pelos cancelamentos sucessivos de sua mãe. Muitos imaginados e inventados, longe da realidade. Ela o cria com perfeição, o problema é que se esconde na maternidade para não criar a si mesma.

Maternidade não é renúncia, é aceitação de que o filho não é tudo, não é um fim, é o nosso recomeço.

Fonte: Fabrício Carpinejar, Crescer, via Pavablog.

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Selo de garantia

Já sabem qual é a nova moda entre as mulheres espanholas? Uma romaria de madrilenas corre aos consultórios especializados para recuperar a virgindade perdida. É a chamada himenoplastia. Pá-pum. Uma cirurgia rapidíssima e lá está a Iracema, com os seus lábios de mel, como veio ao mundo, virgem, virgem. Só dói no bolso: custa uma bagatela de 2 mil euros.

A loucura é tanta que as prostitutas já viram na técnica uma mina. Deu no “El País”: “M., prostituta de 25 anos, passou oito vezes pelo consultório para comprar sua inocência fictícia. Oito homens pagaram 6 mil euros cada um para ser o primeiro. Ela ganhou 48 mil. A cirurgiã que a operou conta que existem ofertas de virgens, leilões realizados em despedidas de solteiro nas quais o melhor licitante desflora a garota”.

Mas esse é um caso raro, relata a reportagem. O mais comum são muçulmanas e ciganas, entre 20 e 25 anos, prestes a casar, com medo que os maridos as abandonem ou castiguem por causa do seu passado.

Fonte: Xico Sá, via Pavablog.

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Não se trata de uma pergunta filosófica. É uma interrogação directa, à qual, pela primeira vez, se respondeu com números e factos.
O primeiro relatório europeu de saúde perinatal foi divulgado este mês e revela quem são as grávidas e as mães, como é o parto, como e se sobrevivem os bebés. É a realidade dos nascimentos em números nus e crus com um objectivo: “Melhores estatísticas para melhor saúde das mulheres grávidas e dos seus bebés”

Não é um retrato – como é hábito dizer nestas alturas em que falamos de relatórios abrangentes. Se for algo do género, será mais um álbum de fotografias de 25 países da UE e da Noruega sobre a saúde perinatal. Porque são muitos os retratos naquele que é anunciado como o mais completo documento sobre o período anterior e posterior ao parto. Mais do que a comparação de indicadores como a mortalidade infantil, a apresentação da mãe europeia ou a apresentação do ranking da Europa, desta vez, há dados comparáveis sobre “detalhes”: o baixo peso dos bebés, as mães que fumam, as cesarianas, as malformações congénitas e até a taxa de episiotomia, lacerações do períneo entre outros factores que podem influenciar o sucesso de uma gravidez, parto e nascimento.

Os resultados variam nos diferentes países, ou seja, “nenhum país está no topo de todos os indicadores”, refere o documento. Na mortalidade neonatal (mortes ocorridas entre o primeiro e os 27 dias de um bebé nascido com vida), a taxa varia entre os dois em cada mil nascimentos (no Chipre, Suécia e Noruega) e os 4,6, na Lituânia, e os 5,7, na Letónia. O documento mostra ainda que, apesar da capacidade de sobrevivência dos bebés a malformações congénitas no primeiro ano de vida, estes casos são ainda o principal contributo para as taxas de morte fetal e neonatal. Assim, a mortalidade perinatal associada a estes problemas varia entre os 0,2 e os 2,6 por cada mil nascimentos e a interrupção de gravidez por anomalias fetais varia entre os 0 e os 10,7 por cento em mil nascimentos. Nos bebés nascidos com menos de 2,5 quilos, o grupo de peritos encontrou um padrão geográfico: ou seja, há menos nos países nórdicos – Estónia, Finlândia e Suécia apresentam taxas de 4,2 a 4,3 por cento e este números duplicam na Grécia (8,5 por cento), na Hungria (8,3 por cento) e em Espanha (7,4 por cento). Quanto à percentagem dos bebés nascidos antes das 37 semanas de gestação, as taxas variam entre os 11,4 por cento na Áustria e os 5,5 na Irlanda. A mortalidade materna é um dos casos onde as variações são muito grandes e no capítulo da paralisia cerebral revela-se que há uma criança afectada em cada 500.

Depois há o lado da Obstetrícia e da prática clínica. Portugal tem destaque pelo elevado número de cesarianas: 33 por cento. Só a Itália tem mais partos por cesariana (38 por cento) e naquele que ainda é encarado com um indicador de má prática clínica o país melhor posicionado é a Holanda (14 por cento). No parto instrumental (que implica recurso a fórceps ou ventosa), Portugal volta a estar no topo da lista, com 12 por cento, apresentando um valor quatro vezes mais alto do que o que se regista na Irlanda e na Eslovénia. A indução do parto atinge 9 por cento na Lituânia e na Estónia, mas ultrapassa os 30 por cento em Malta. Mais pormenor? Nos partos vaginais, a episiotomia [corte na região do períneo (entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto e evitar um rasgo] acontece em menos de 10 por cento dos partos na Dinamarca, mas chega aos 82 por cento em Valência (Espanha).
Para alguns, estas questões já serão informação a mais. Para os especialistas, nunca. “Precisamos de informação mais fina do que um indicador de mortalidade infantil para conseguir medir os ganhos na saúde perinatal”, diz Henrique Barros, coordenador em Portugal do projecto europeu Euro-Peristat, que produziu este relatório. Os tais dados finos agora apresentados neste relatório são de 2004, mas, segundo o epidemiologista, “isso é completamente irrelevante”, Aliás, “esta informação é o melhor que podemos ter”, diz o especialista, que adianta que o trabalho de tratamento destes números levou dois anos a fazer (entre 2005 e 2007). “O trabalho está feito. Agora queremos que tudo isto se transforme numa rotina. Criar uma plataforma de dados que seja renovada regularmente, como o Eurostat”, anuncia Henrique Barros. O próprio documento avisa que este trabalho, para fazer sentido, tem de ser continuado ano após ano.

Cada país, o seu retrato

Em alguns dos gráficos apresentados no documento sobre os principais indicadores, nota-se a ausência de Portugal. Não foi efectuado registo dos dados, a informação que existe baseia-se em amostras e não estatísticas de rotina ou, simplesmente, não foi devidamente cruzada a informação. “Mais importante do que os dados que não temos é não estarmos a fazer o cruzamento que devíamos e podíamos dos dados que temos, refere Henrique Barros. Exemplo? “Não temos mortes por peso ao nascimento. Temos o peso ao nascimento e temos mortes, mas não temos estes dois dados relacionados. Numa certidão de nascimento, temos o peso ao nascimento e, na certidão de óbito, não temos esse dado referido. Não fazemos a ligação da informação. Acredito que existam aqui muitas mortes relacionadas com o baixo peso e que, por isso, podiam ser evitáveis.” Eis os tais ganhos de saúde que se pretendem e eis o que se entende por “melhores estatísticas para melhor saúde”. De resto, o país continua bem colocado na taxa de mortalidade infantil, onde conseguimos uma descida bem notória nos últimos anos. “Mas podemos fazer ainda melhor. É um indicador excelente, mas não podemos ficar a dormir em cima disso.”

Henrique Barros recupera o título do relatório e deixa ainda um voto de confiança na “sensibilidade” da ministra da Saúde, Ana Jorge: “Espero sinceramente que estas estatísticas se traduzam em melhor saúde perinatal”. Na Europa, há mais governos chamados a intervir. Os holandeses foram surpreendidos com uma série de maus indicadores e a imprensa fez eco da indignação sobre a elevada taxa de mortalidade entre recém-nascidos que, alegam alguns especialistas, poderá estar relacionada com a moda dos partos no domicílio. O relatório já motivou mesmo um pedido de esclarecimento do parlamento ao ministro da Saúde holandês. Enquanto isso, em Itália, ouvem-se as possíveis explicações para os 38 por cento de cesarianas e que, entre outros, assentam por exemplo nas assimetrias regionais.
Em Espanha, as notícias falam da baixa mortalidade perinatal, mas também no facto de se encontrar no grupo de países com maior percentagem de bebés com baixo peso e prematuros. Além disso, destaca-se o facto de as espanholas serem as mulheres europeias que decidem mais tarde ser mães. Finalmente, em Malta, o destaque foi para os poucos nascimentos e a elevada taxa de gravidezes entre adolescentes (5,8 por cento). Cada país comenta a sua fotografia neste álbum de família da Europa. Por cá, já se fez notícia com a alta taxa de cesariana.

É impossível traçar um retrato da mãe europeia. Elas (as mães) são muitas, diferentes e estão por todo o lado. Mas há traços marcantes. Nas mães, nos bebés, nos partos, na gravidez. Alguns com explicação óbvia – como, por exemplo, o baixo número de IVG na católica Polónia – outros nem tanto. Todos a precisar que este trabalho de recolha de dados continue para que se possa tirar conclusões.

Mães

A percentagem de mães adolescentes (menos de 20 anos) varia entre os 1,3, na Dinamarca, e os 9,3, na Letónia. Portugal fica num grupo de países intermédio, com uma taxa entre os 3 e os 5 por cento.

No mapa da maternidade tardia (depois dos 35 anos), as taxas vão desde os 7,5 da Eslováquia até aos 24,3 da Irlanda. Portugal está no grupo de países que apresentam uma taxa entre 13,5 e 19,3 por cento.

Os dados sobre o tabaco variam no tipo de recolha, que vai desde estudos ao longo de toda a gravidez a estudos por trimestres de gestação. Porém, de uma forma geral, os resultados variam entre os 5 a 7 por cento de mães fumadoras na Lituânia, República Checa, Suécia e Malta e os 21 por cento em França, passando pelos 16 por cento da Dinamarca. Com base num estudo por amostra, que não é considerado estatística de rotina, Portugal tem uma percentagem de 14,7 por cento de mães fumadoras no terceiro trimestre.

Há uma grande variação entre as mães com o secundário (dos 13 por cento aos 45 por cento) e no capítulo do ensino básico do primeiro ciclo (dos 4 aos 29 por cento). Em Portugal, 32 por cento das mães têm a educação primária ou nenhuma, 44,7 por cento o secundário e 23,3 fizeram mais do que o secundário.

A mortalidade materna varia entre os zero na Eslovénia (em 2004, e com quatro mortes registadas em 2003) e em Malta e os 55 em França e no Reino Unido (em 2003). O relatório menciona a dificuldade de tratamento destes dados, recolhidos de diferentes formas nos vários países. Numa tabela geral que apresenta o rácio da mortalidade materna por 100 mil nascimentos, a Estónia surge em primeiro lugar, com 29,6. Portugal regista uma taxa de 7,7. Por idades, a mortalidade materna está nos 4,1 entre as mães com menos de 25 anos, 5,7 naquelas que têm entre 25 e 34 anos e 12,8 nas mulheres com mais de 35 anos.

Nas causas de morte, a categoria “desconhecidas” abrange 13,4 por cento dos casos na Europa. No entanto, concluem os especialistas, as hemorragias pós-parto (13,1 por cento) continuam a aparecer no topo da lista, ainda que a proporção varie entre os 5,6 no Reino Unido e os 50 por cento na Eslovénia. Portugal não fornece dados sobre esta matéria.

Parto

Itália tem a mais alta taxa de cesariana (38 por cento), seguida de Portugal com 33,1. Nos outros países, os valores andam abaixo dos 30 por cento. No gráfico onde se apresenta a taxa de cesariana electiva (programada) e de emergência, Portugal não forneceu dados. A mais alta taxa de programação acontece em Itália (24,9 por cento) e as emergências têm o valor mais alto na Escócia (15,4 por cento).

Poucos partos ocorrem em unidades de saúde com menos de 500 nascimentos por ano. Em dez dos países que forneceram dados sobre isso, menos de 5 por cento dos partos acontecem nesses locais. Chipre e Lituânia marcam a diferença, com mais de um quinto dos partos a ocorrer nestas pequenas unidades. Segundo o mapa, existe um padrão geográfico nesta questão. A opção pelos blocos de partos sediados em grandes unidades hospitalares é mais comum na Europa do Norte, Escócia, Irlanda, Portugal e Espanha.

A maioria dos países apresentou taxas inferiores a um por cento de partos no domicílio, notando-se apenas uma ligeira alteração desta tendência na Inglaterra (2,2 por cento) e no País de Gales (3,3 por cento). A excepção encontra-se na Holanda, que regista uma taxa de 30 por cento de partos em casa.

As taxas de episiotomia variam entre os 80 por cento dos partos vaginais em Valência (Espanha) e Portugal e os 9,7 na Dinamarca. Pelo meio estão os 16,7 por cento da Inglaterra e os valores entre os 50 e 67 por cento da Flandres, República Checa, Itália e Eslovénia. A percentagem de mulheres que não tiveram uma episiotomia e sofreram lacerações do períneo varia entre os 0,2 por cento de Itália (Portugal com 0,4 por cento) e os 3,5 da Dinamarca.

Gravidez

As técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) podem ser responsáveis, nalguns países, por quase 5 por cento dos nascimentos. Dois por cento dos bebés nascidos foram concebidos através de fertilização in vitro (FIV). A taxa mais alta de PMA encontra-se nas mulheres francesas: 4,9 das mães ficaram grávidas através de uma forma de PMA, 1,7 por FIV.

Bebés

Nalguns países, quase todos os bebés são amamentados à nascença (República Checa, Letónia, Eslovénia e Suécia). As taxas mais baixas encontram-se na Irlanda (46 por cento), França (62 por cento), Malta (68 por cento) e Reino Unido (76 por cento). Portugal não apresenta dados neste capítulo.

Os números gerais de mortalidade fetal variam entre os 3 por cada mil nascimentos em Espanha, Luxemburgo, Alemanha e Suécia e os 7 e 9,1 por mil na Holanda e França. Portugal apresenta uma taxa de 3,8 na tabela geral (que inclui os casos a partir das 22 semanas de gestação) e os 2,7 a partir das 28 semanas.

Os números de mortalidade neonatal variam entre os 2,5 por cada mil nascimentos no Luxemburgo, Chipre, Suécia e Noruega e mais de 4 por cento na Estónia (4,2), Letónia (5,7) e Polónia (4,9). A maioria das mortes ocorreu nos sete dias subsequentes ao parto. Portugal apresenta uma taxa de 1,7 nos primeiros seis dias de vida e de 0,9 entre o sétimo e o 27º dia.

A mortalidade infantil varia entre os 3 por cada mil nascidos na Suécia e Noruega e os 9,4 na Letónia, os 8,1 da Lituânia, 6,6 na Hungria e 6,8 da Polónia. Portugal apresenta uma taxa de 3,9.

A percentagem de bebés com menos de 2,5 quilos varia entre os 4,2 por cento e os 8,5 por cento em todos os nascimentos registados nos países que forneceram informação sobre este indicador. Alguns países do Sul da Europa, como Portugal (0,9 dos bebés tinham menos de 1,5 quilos e 6,7 entre 1,5 e 2,5 quilos) e Espanha, revelaram as mais altas percentagens de baixo peso enquanto o outro extremo foi encontrado nos países nórdicos (Finlândia, Suécia e Noruega).

Fonte: Público.

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