
Não se trata de uma pergunta filosófica. É uma interrogação directa, à qual, pela primeira vez, se respondeu com números e factos.
O primeiro relatório europeu de saúde perinatal foi divulgado este mês e revela quem são as grávidas e as mães, como é o parto, como e se sobrevivem os bebés. É a realidade dos nascimentos em números nus e crus com um objectivo: “Melhores estatísticas para melhor saúde das mulheres grávidas e dos seus bebés”
Não é um retrato – como é hábito dizer nestas alturas em que falamos de relatórios abrangentes. Se for algo do género, será mais um álbum de fotografias de 25 países da UE e da Noruega sobre a saúde perinatal. Porque são muitos os retratos naquele que é anunciado como o mais completo documento sobre o período anterior e posterior ao parto. Mais do que a comparação de indicadores como a mortalidade infantil, a apresentação da mãe europeia ou a apresentação do ranking da Europa, desta vez, há dados comparáveis sobre “detalhes”: o baixo peso dos bebés, as mães que fumam, as cesarianas, as malformações congénitas e até a taxa de episiotomia, lacerações do períneo entre outros factores que podem influenciar o sucesso de uma gravidez, parto e nascimento.
Os resultados variam nos diferentes países, ou seja, “nenhum país está no topo de todos os indicadores”, refere o documento. Na mortalidade neonatal (mortes ocorridas entre o primeiro e os 27 dias de um bebé nascido com vida), a taxa varia entre os dois em cada mil nascimentos (no Chipre, Suécia e Noruega) e os 4,6, na Lituânia, e os 5,7, na Letónia. O documento mostra ainda que, apesar da capacidade de sobrevivência dos bebés a malformações congénitas no primeiro ano de vida, estes casos são ainda o principal contributo para as taxas de morte fetal e neonatal. Assim, a mortalidade perinatal associada a estes problemas varia entre os 0,2 e os 2,6 por cada mil nascimentos e a interrupção de gravidez por anomalias fetais varia entre os 0 e os 10,7 por cento em mil nascimentos. Nos bebés nascidos com menos de 2,5 quilos, o grupo de peritos encontrou um padrão geográfico: ou seja, há menos nos países nórdicos – Estónia, Finlândia e Suécia apresentam taxas de 4,2 a 4,3 por cento e este números duplicam na Grécia (8,5 por cento), na Hungria (8,3 por cento) e em Espanha (7,4 por cento). Quanto à percentagem dos bebés nascidos antes das 37 semanas de gestação, as taxas variam entre os 11,4 por cento na Áustria e os 5,5 na Irlanda. A mortalidade materna é um dos casos onde as variações são muito grandes e no capítulo da paralisia cerebral revela-se que há uma criança afectada em cada 500.
Depois há o lado da Obstetrícia e da prática clínica. Portugal tem destaque pelo elevado número de cesarianas: 33 por cento. Só a Itália tem mais partos por cesariana (38 por cento) e naquele que ainda é encarado com um indicador de má prática clínica o país melhor posicionado é a Holanda (14 por cento). No parto instrumental (que implica recurso a fórceps ou ventosa), Portugal volta a estar no topo da lista, com 12 por cento, apresentando um valor quatro vezes mais alto do que o que se regista na Irlanda e na Eslovénia. A indução do parto atinge 9 por cento na Lituânia e na Estónia, mas ultrapassa os 30 por cento em Malta. Mais pormenor? Nos partos vaginais, a episiotomia [corte na região do períneo (entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal de parto e evitar um rasgo] acontece em menos de 10 por cento dos partos na Dinamarca, mas chega aos 82 por cento em Valência (Espanha).
Para alguns, estas questões já serão informação a mais. Para os especialistas, nunca. “Precisamos de informação mais fina do que um indicador de mortalidade infantil para conseguir medir os ganhos na saúde perinatal”, diz Henrique Barros, coordenador em Portugal do projecto europeu Euro-Peristat, que produziu este relatório. Os tais dados finos agora apresentados neste relatório são de 2004, mas, segundo o epidemiologista, “isso é completamente irrelevante”, Aliás, “esta informação é o melhor que podemos ter”, diz o especialista, que adianta que o trabalho de tratamento destes números levou dois anos a fazer (entre 2005 e 2007). “O trabalho está feito. Agora queremos que tudo isto se transforme numa rotina. Criar uma plataforma de dados que seja renovada regularmente, como o Eurostat”, anuncia Henrique Barros. O próprio documento avisa que este trabalho, para fazer sentido, tem de ser continuado ano após ano.
Cada país, o seu retrato
Em alguns dos gráficos apresentados no documento sobre os principais indicadores, nota-se a ausência de Portugal. Não foi efectuado registo dos dados, a informação que existe baseia-se em amostras e não estatísticas de rotina ou, simplesmente, não foi devidamente cruzada a informação. “Mais importante do que os dados que não temos é não estarmos a fazer o cruzamento que devíamos e podíamos dos dados que temos, refere Henrique Barros. Exemplo? “Não temos mortes por peso ao nascimento. Temos o peso ao nascimento e temos mortes, mas não temos estes dois dados relacionados. Numa certidão de nascimento, temos o peso ao nascimento e, na certidão de óbito, não temos esse dado referido. Não fazemos a ligação da informação. Acredito que existam aqui muitas mortes relacionadas com o baixo peso e que, por isso, podiam ser evitáveis.” Eis os tais ganhos de saúde que se pretendem e eis o que se entende por “melhores estatísticas para melhor saúde”. De resto, o país continua bem colocado na taxa de mortalidade infantil, onde conseguimos uma descida bem notória nos últimos anos. “Mas podemos fazer ainda melhor. É um indicador excelente, mas não podemos ficar a dormir em cima disso.”
Henrique Barros recupera o título do relatório e deixa ainda um voto de confiança na “sensibilidade” da ministra da Saúde, Ana Jorge: “Espero sinceramente que estas estatísticas se traduzam em melhor saúde perinatal”. Na Europa, há mais governos chamados a intervir. Os holandeses foram surpreendidos com uma série de maus indicadores e a imprensa fez eco da indignação sobre a elevada taxa de mortalidade entre recém-nascidos que, alegam alguns especialistas, poderá estar relacionada com a moda dos partos no domicílio. O relatório já motivou mesmo um pedido de esclarecimento do parlamento ao ministro da Saúde holandês. Enquanto isso, em Itália, ouvem-se as possíveis explicações para os 38 por cento de cesarianas e que, entre outros, assentam por exemplo nas assimetrias regionais.
Em Espanha, as notícias falam da baixa mortalidade perinatal, mas também no facto de se encontrar no grupo de países com maior percentagem de bebés com baixo peso e prematuros. Além disso, destaca-se o facto de as espanholas serem as mulheres europeias que decidem mais tarde ser mães. Finalmente, em Malta, o destaque foi para os poucos nascimentos e a elevada taxa de gravidezes entre adolescentes (5,8 por cento). Cada país comenta a sua fotografia neste álbum de família da Europa. Por cá, já se fez notícia com a alta taxa de cesariana.
É impossível traçar um retrato da mãe europeia. Elas (as mães) são muitas, diferentes e estão por todo o lado. Mas há traços marcantes. Nas mães, nos bebés, nos partos, na gravidez. Alguns com explicação óbvia – como, por exemplo, o baixo número de IVG na católica Polónia – outros nem tanto. Todos a precisar que este trabalho de recolha de dados continue para que se possa tirar conclusões.
Mães
A percentagem de mães adolescentes (menos de 20 anos) varia entre os 1,3, na Dinamarca, e os 9,3, na Letónia. Portugal fica num grupo de países intermédio, com uma taxa entre os 3 e os 5 por cento.
No mapa da maternidade tardia (depois dos 35 anos), as taxas vão desde os 7,5 da Eslováquia até aos 24,3 da Irlanda. Portugal está no grupo de países que apresentam uma taxa entre 13,5 e 19,3 por cento.
Os dados sobre o tabaco variam no tipo de recolha, que vai desde estudos ao longo de toda a gravidez a estudos por trimestres de gestação. Porém, de uma forma geral, os resultados variam entre os 5 a 7 por cento de mães fumadoras na Lituânia, República Checa, Suécia e Malta e os 21 por cento em França, passando pelos 16 por cento da Dinamarca. Com base num estudo por amostra, que não é considerado estatística de rotina, Portugal tem uma percentagem de 14,7 por cento de mães fumadoras no terceiro trimestre.
Há uma grande variação entre as mães com o secundário (dos 13 por cento aos 45 por cento) e no capítulo do ensino básico do primeiro ciclo (dos 4 aos 29 por cento). Em Portugal, 32 por cento das mães têm a educação primária ou nenhuma, 44,7 por cento o secundário e 23,3 fizeram mais do que o secundário.
A mortalidade materna varia entre os zero na Eslovénia (em 2004, e com quatro mortes registadas em 2003) e em Malta e os 55 em França e no Reino Unido (em 2003). O relatório menciona a dificuldade de tratamento destes dados, recolhidos de diferentes formas nos vários países. Numa tabela geral que apresenta o rácio da mortalidade materna por 100 mil nascimentos, a Estónia surge em primeiro lugar, com 29,6. Portugal regista uma taxa de 7,7. Por idades, a mortalidade materna está nos 4,1 entre as mães com menos de 25 anos, 5,7 naquelas que têm entre 25 e 34 anos e 12,8 nas mulheres com mais de 35 anos.
Nas causas de morte, a categoria “desconhecidas” abrange 13,4 por cento dos casos na Europa. No entanto, concluem os especialistas, as hemorragias pós-parto (13,1 por cento) continuam a aparecer no topo da lista, ainda que a proporção varie entre os 5,6 no Reino Unido e os 50 por cento na Eslovénia. Portugal não fornece dados sobre esta matéria.
Parto
Itália tem a mais alta taxa de cesariana (38 por cento), seguida de Portugal com 33,1. Nos outros países, os valores andam abaixo dos 30 por cento. No gráfico onde se apresenta a taxa de cesariana electiva (programada) e de emergência, Portugal não forneceu dados. A mais alta taxa de programação acontece em Itália (24,9 por cento) e as emergências têm o valor mais alto na Escócia (15,4 por cento).
Poucos partos ocorrem em unidades de saúde com menos de 500 nascimentos por ano. Em dez dos países que forneceram dados sobre isso, menos de 5 por cento dos partos acontecem nesses locais. Chipre e Lituânia marcam a diferença, com mais de um quinto dos partos a ocorrer nestas pequenas unidades. Segundo o mapa, existe um padrão geográfico nesta questão. A opção pelos blocos de partos sediados em grandes unidades hospitalares é mais comum na Europa do Norte, Escócia, Irlanda, Portugal e Espanha.
A maioria dos países apresentou taxas inferiores a um por cento de partos no domicílio, notando-se apenas uma ligeira alteração desta tendência na Inglaterra (2,2 por cento) e no País de Gales (3,3 por cento). A excepção encontra-se na Holanda, que regista uma taxa de 30 por cento de partos em casa.
As taxas de episiotomia variam entre os 80 por cento dos partos vaginais em Valência (Espanha) e Portugal e os 9,7 na Dinamarca. Pelo meio estão os 16,7 por cento da Inglaterra e os valores entre os 50 e 67 por cento da Flandres, República Checa, Itália e Eslovénia. A percentagem de mulheres que não tiveram uma episiotomia e sofreram lacerações do períneo varia entre os 0,2 por cento de Itália (Portugal com 0,4 por cento) e os 3,5 da Dinamarca.
Gravidez
As técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) podem ser responsáveis, nalguns países, por quase 5 por cento dos nascimentos. Dois por cento dos bebés nascidos foram concebidos através de fertilização in vitro (FIV). A taxa mais alta de PMA encontra-se nas mulheres francesas: 4,9 das mães ficaram grávidas através de uma forma de PMA, 1,7 por FIV.
Bebés
Nalguns países, quase todos os bebés são amamentados à nascença (República Checa, Letónia, Eslovénia e Suécia). As taxas mais baixas encontram-se na Irlanda (46 por cento), França (62 por cento), Malta (68 por cento) e Reino Unido (76 por cento). Portugal não apresenta dados neste capítulo.
Os números gerais de mortalidade fetal variam entre os 3 por cada mil nascimentos em Espanha, Luxemburgo, Alemanha e Suécia e os 7 e 9,1 por mil na Holanda e França. Portugal apresenta uma taxa de 3,8 na tabela geral (que inclui os casos a partir das 22 semanas de gestação) e os 2,7 a partir das 28 semanas.
Os números de mortalidade neonatal variam entre os 2,5 por cada mil nascimentos no Luxemburgo, Chipre, Suécia e Noruega e mais de 4 por cento na Estónia (4,2), Letónia (5,7) e Polónia (4,9). A maioria das mortes ocorreu nos sete dias subsequentes ao parto. Portugal apresenta uma taxa de 1,7 nos primeiros seis dias de vida e de 0,9 entre o sétimo e o 27º dia.
A mortalidade infantil varia entre os 3 por cada mil nascidos na Suécia e Noruega e os 9,4 na Letónia, os 8,1 da Lituânia, 6,6 na Hungria e 6,8 da Polónia. Portugal apresenta uma taxa de 3,9.
A percentagem de bebés com menos de 2,5 quilos varia entre os 4,2 por cento e os 8,5 por cento em todos os nascimentos registados nos países que forneceram informação sobre este indicador. Alguns países do Sul da Europa, como Portugal (0,9 dos bebés tinham menos de 1,5 quilos e 6,7 entre 1,5 e 2,5 quilos) e Espanha, revelaram as mais altas percentagens de baixo peso enquanto o outro extremo foi encontrado nos países nórdicos (Finlândia, Suécia e Noruega).
Fonte: Público.